O futebol brasileiro precisa ser refundado

O futebol brasileiro precisa ser refundado

Nós estamos sozinhos. O destino queria – e todas as pessoas que votaram em Bolsonaro ou cancelaram a votação – que passássemos por uma pandemia liderada por um psicopata que, com a ajuda de seu ministro da Fazenda, não teve chance de cometer genocídio. É aqui que estamos agora: sozinhos e sozinhos, implorando por um pouco de sorte e lidando com o medo e o desamparo.

Todas essas sensações são ainda piores para quem não consegue se isolar, para quem não tem onde se isolar, para quem precisa trabalhar e se expor ao vírus para não morrer de fome.

No meio desta tragédia sem precedentes, existe um futebol que se recusa a parar. Negativamente, continua como se quase nada estivesse acontecendo com base na crença limitadora e equivocada de que as pessoas precisam dessa distração.

A população precisa de muitas coisas, sim: oxigênio, segurança alimentar, acesso a tratamento, proteção social. O futebol não é crucial no momento. Mas ele poderia exercer sua função social, que parece ter perdido de vista.

Mas o futebol, assim como a economia, não pode parar. É o que diz o mantra dos donos do poder.

O encontro da CBF, em que o presidente Rogério Caboclo fala com representantes de diversos clubes brasileiros, e que foi publicado pelo Blog do Venê Casagrande (obrigado Venê), revela o que há de podre nesse esporte que amamos.

Nas palavras de Caboclo, está claro por que o futebol não pode parar: as empresas que pagam por ele não param. Eles são patrocinadores, a empresa que assiste TV, enfim, o dinheiro. Se o capital não quer parar, não há motivo para parar, sejamos razoáveis.

As palavras da razão estão sempre ao lado de quem diz coisas como “claro que vão perder algumas vidas, isso é uma parte. O que não pode parar é a economia”. Qualquer pessoa que chame a atenção para o sentido da vida é rapidamente chamada de ingênua.

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Hoje, o futebol nada mais é do que isso: uma mercadoria.

O futebol brasileiro existe para servir interesses que não pertencem à bandeira. A guia é um detalhe neste jogo. Os estádios foram redesenhados para que apenas uma parte da população possa participar. Os jogos na TV devem ser adquiridos. Comprei duas vezes porque não basta se inscrever no canal de esportes. Você também deve assinar – o nome é claro, gringo – pagar por. Vendo. Quem só tem dinheiro para assinar um tipo de pacote acaba vendo Mirassol e Novo Horizontino. Quem sabe no ano que vem, se você se esforçar um pouco mais, sobre dinheiro para pagar. Vendo.

O futebol brasileiro está desconectado da realidade. Num país onde as pessoas param de usar botijão e voltam para a floresta por falta de dinheiro, onde a fome volta a ser uma ameaça, onde a população de rua cresceu exorbitantemente, o futebol é feito para o rico, para um Brasil institucional, que dobra as paredes de seus condomínios, recusando-se a ver o futebol como uma ferramenta política de libertação.

Em 1970, durante uma ditadura selvagem, existíamos futebol. Éramos gigantes, escritores de um tipo de jogo que não víamos em nenhum outro lugar. Em 1982, reaparecemos com um futebol emocionante e comovente que encantou e tornou a Europa, a África e a Oceania emocionantes.

E então, atormentados pelas leis sagradas do mercado, vimos do nosso espaço o capitalismo em sua versão mais danosa – o neoliberalismo – infectando todas as dimensões de nossas vidas – o futebol um dos mais importantes. Em sua fúria por lucro e exploração, o sistema econômico sufocou o futebol, e o jogo começou a infestar.

Muito antes do futebol ganhar sua dimensão corporativa e se tornar um produto feito para os ricos, eu conhecia pessoas que diziam: você quer resolver o problema dos jogos em estádios? O preço do ingresso está aumentando. Como se os presos fossem pessoas muito magras, elegantes e sinceras que aplaudiam um alvo, como se estivessem batendo palmas de uma orquestra sinfônica no final do concerto e respeitando o sujeito sentado ao seu lado com a camisa do rival. O classicismo – que neste país não está separado do racismo – é uma das nossas doenças mais graves.

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O futebol brasileiro hoje é feito por e para um Brasil que realmente não existe. O Brasil geral, o Brasil dos corpos que dançam e cantam livremente, não é representado pelo jogo. No campo, o que vemos é um reflexo dessa miséria moral: um jogo covarde, pequeno, defensivo e violento.

Não existe mais um esquema tático original, os dribles praticamente morreram, e tudo o que fazemos é imitar aqueles que nos colonizaram. Imitamos a forma como as entrevistas são dadas, a entrada para as equipes em campo, os horários dos jogos. Curvamo-nos de boa vontade a uma cultura do futebol que não nos representa, mas que serve perfeitamente aos interesses do capital.

E até a camisa amarela que se tornou a mais bonita do mundo hoje representa essa miséria moral, uma rendição, patriotismo cru e conflitante. Uma aberração estética que em uma demonstração patriótica pode misturar o uniforme amarelo com a bandeira americana.

Um futebol que se fecha com essa política de genocídio, com negação, com covardia. Um futebol que é incapaz de discutir o privilégio da cor como se existisse em um universo paralelo, em um mundo alienado e irreal, formado por homens brancos e poderosos que sempre têm todas as respostas e que são regidos apenas pelo mérito e nada absoluto além disso .

Nosso futebol está morto. Que quando tudo isso passar (porque vai passar) possamos redescobri-lo. Que o novo futebol tenha as pernas de Garrincha, a cabeça de Pelé, as mãos e o caráter de Barbosa, a técnica de Marta, a força de Formiga.

Que seja leve como o Brasil nas fendas (Salve, Luiz Antonio Simas), alegre como o samba do Recôncavo, reverente como o carnaval, exuberante e encantado como a bateria de uma escola de samba, ousado como todos aqueles que são eles risco lutando contra a opressão (Viva Marielle) e potente como Orixá.

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Que ela tenha a sabedoria das orações nordestinas, carregue a esperança de uma curandeira e a resiliência de tudo o que é feminino. Que tenha as cores de um Brasil capaz de resistir e reexistir, de se reinventar uma vez, e outra, mesmo quando tudo parece perdido.

E que este mundo colonizado e podre sob o comando de homens brancos heteronormativos cheios de poder e convicções limitadoras, aprisionados em seus castelos sexistas e patriarcais, será superado de uma vez por todas.